domingo, 5 de setembro de 2010

Inglaterra, Portugal e Brasil


Há tempos que eu estou enrolando com este post, mas hoje resolvi desenrolá-lo. Há mais ou menos dois meses, pisei pela primeira vez meu pé fora do continente, e em comemoração aos mais de mil visitantes que tive desde a criação deste blog há menos de um ano, venho através daqui contar-lhes a minha história.


Logo no primeiro dia, já sabíamos que os mais de 100 membros da orquestra seriam divididos em três grupos. Um já havia partido no dia 2 de Julho, e os outros dois no dia seguinte. Devido a um erro da agência de viagens contratada, não pudemos viajar todos juntos. Então, boa parte da orquestra ficou no tão temido Grupo 3. Este grupo foi presenteado com um city-tour em Lisboa por umas oito horas, enquanto esperávamos o próximo voo para Londres. Soa legal, não? Pois bem.

Muita emoção ao pisar nas terras portuguesas

Após as intermináveis e fatídicas horas sobrevoando o infinito Oceano Atlântico, pudemos finalmente respirar ar natural e esticar as pernas. E como de costume, esperamos muito tempo até a próxima etapa. Era engraçado ver a galera toda empolgada, tirando foto de coisa nenhuma, de um aeroporto praticamente deserto. Até que então, a empresa do city-tour resolve aparecer. E então, partimos até o nosso café-da-manhã... opa! O city-tour não foi lá essas coisas, pois era domingo de manhã, e parecia que a cidade estava evacuando de alguma emergência. A arquitetura e organização urbanística era interessante, mas segundo a nossa guia turística, 80% das coisas em Lisboa levavam o nome de Vasco da Gama. Vixe, esse cara tá pau a pau com Simon Bolivar lá em Caracas. Assim, chegamos no bairro de Belém, famosos pelos seus pastéis. Todo mundo de rango, enjoado de comida de avião, finalmente colocaríamos algo decente nos nossos estômagos. Quem tivesse portando os euros, é claro. Sim, leitores, eu também pensei que o café da manhã estaria incluso no pacote. Mas nada. Os duros, como eu, ficaram de rango. E assim, a galera resolveu apelidar os produtos da famosa Pastelaria de Belém como "pastéis do além", pois nem morto (de fome) conseguiriam comê-los. Mas não parou por aqui! Tivemos o almoço, este sim, estava incluso.

A primeira foto mostra a galera fazendo propaganda do local. A segunda foi logo depois de descobrir que todo mundo tava duro, e ia ficar sem pastelzinho.

Ah, o episódio do almoço... seria trágico se não fosse cômico! Isso mesmo, baiano que é baiano é feliz por rir da própria desgraça. Esse foi o dia que mais ri da viagem, apesar dos pesares. Após mais um enrolation-tour, visitamos diversos pontos turísticos de Lisboa até o horário do almoço. Daí, fomos até um restaurantezinho no centro da cidade. Caminhamos um pouco, sob o verão ibérico impetuoso (alguns relataram mais de 37°), e todos suados, sedentos e famintos, chegamos no local. Assim que sentamos, fomos logos avisados que as bebidas eram por nossa conta. Massa. Até que, no auge das nossas fomes, nos serviram uma xícara de sopa. Na minha mesa, que tinha cerca de umas 10 pessoas, todos pararam boquiabertos e ficaram uns olhando para a cara dos outros. É uma cena que nunca vou esquecer. Logo após, a galera foi consumida pelo ódio e começou a esculhambação com o pobre do garçom. Afinal, nada melhor do que uma sopa com pão (que eram pedaços de madeira, por sinal) naquele calorzinho agradável. "Pior é na guerra", foi o pensamento da mesa, e comemos aquilo sem remorso. Ficamos um tempo lá esperando mais comida; alguns da mesa desistiram e ficaram do lado de fora. Até que depois, descobrimos que a sopa com pão era entrada, e chegou um frango gorduroso lá. Que barril, depois de comer aquilo tudo e com sede... e por falar em sede, literalmente aprendemos a dividir o pão e a água lá. Dois colegas foram solidários e pagaram água suficiente para a mesa. Não fosse o espírito de gaiatice daquela mesa (muito da minha parte, por sinal), aquele almoço acabaria com o resto da viagem. E avancemos para Londres!

"City of London", vista do alojamento do Queen Mary University.

Chegamos no aeroporto de Londres após uma rápida viagem, todos cansados e acabados, mas ainda animados. Após um bom tempo cruzando a enorme cidade, por volta das 23h30, o motorista de um dos ônibus encosta o carro e fala: "Acabou meu horário. Vocês vão ter que contratar outro." Impressionante essa pontualidade inglesa, hein? E depois de vários acertos lá, nos apertamos todos em um únicos ônibus. Seria lindo se não dividíssemos nosso espaço com malas e instrumentos. Mas que nada, depois do nosso dia fatídico em Lisboa, daqui pra frente seriam tudo maravilhas. Chegamos finalmente nos nossos dormitórios, no Queen Mary University. Jantamos comida pronta e fomos dormir felizes.

 O sorriso forçado destas duas integrantes mostra o quão cansado o Grupo 3 estava

Praticamente o dia seguinte foi livre, aproveitamos para explorar o centro da cidade e tirar fotos. Mas daí em diante, acabou a moleza! Começaram os ensaios. Afinal, viajamos a trabalho. No primeiro ensaio, conhecemos outros 10 jovens integrantes ingleses que nos acompanhariam até o final da turnê. Depois de duas noites no Queen Mary, nos mudamos para o Park Plaza Westminster Bridge - isso sim é que é hotel! Tanto que foi o que me inspirou a fazer mais um filminho - a la Maria Lando. Após a acomodação, tivemos uma loooooonga, mas longa mesmo, caminhada até a Embaixada do Brasil em Londres, onde fizemos um social lá com o Embaixador. Apesar de reclamar depois, conhecemos alguns pontos interessantes de Londres e uns dois dos seus parques reais.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção em Londres foi o sistema de transporte público e a educação do seu povo. O London Underground é o mais antigo e mais moderno sistema de metrôs subterrâneos do mundo, precisa dizer mais o quê? Dá pra ir pra qualquer lugar, em qualquer hora, num piscar de olhos. Teve até um caso de que me encontrei perdido por lá, comprei um bilhete do metrô pra um lugar errado. A moça da assistência simplesmente cruzou a imensa estação de Waterloo comigo para liberar a catraca pessoalmente de outro portão para mim. O pessoal das lojas e restaurantes, basicamente todos de origem árabe e indiana, nos atendiam muito bem, e sempre que pude, trocava uma ideia com ele sobre como era tentar a vida na capital britânica. Até que numa loja perto do hotel encontramos um brasileiro, que dizia estar lá há 9 anos e que não sairia de lá por nada.

No backstage, haviam monitores para informar os músicos do que estava acontecendo no palco. Nesta imagem, vemos que estes músicos claramente estão vendo a orquestra - e não um jogo ao vivo da Copa!


Até que chega nosso momento máximo, o dia mais importante! O tão esperado concerto no Queen Elizabeth Hall. Foi sucesso absoluto, percebi que a orquestra estava meio nervosa, mas conseguimos cativar o público a ponto de até levantarem para nos aplaudir. Segundo a 'voz da experiência', o público europeu não costuma a fazer isto. Que honra, hein?

Sol e pagode, nossos percussionistas não poderiam deixar passar essa combinação

Após dias maravilhosos na terra de Bete, a Rainha, retornamos para Portugal. Durante o voo, aproveitei para socializar com a galerinha inglesa e praticar um pouco a língua. Nos hospedamos num hotel um pouco menos confortável, numa cidade dentro da Grande Lisboa. Mas não pense que a maldição do Grupo 3 estava terminada. Assim que chegamos, depois da acomodação no hotel, fomos premiados com um maravilhoso jantar num restaurante de crepes, por volta das 22h. Como sempre, tinha que ter algo de errado. Cada crepe demorava cerca de 01h30 para sair. Muitos desistiram e dormiram com fome. Alguns bravos guerreiros ficaram lá até às 3h da manhã até o último crepe sair. Mas como foi uma situação de emergência, eu não me sentiria bem se culpasse os pobres portugueses.
No dia seguinte, tivemos ensaio pela manhã no Centro Cultural de Belém, ao lado dos locais onde basicamente passamos o primeiro dia inteiro no enrolation-tour. De tarde, foi só um tempo pra descansar e se arrumar para a grande noite. Mas apesar do escasso público, fizemos muito bem.
Ah... domingão de sol. O nosso último dia na Europa, mais do que merecido, teria que ser um de descanso. Muitos aproveitaram e foram curtir as belíssimas praias naquele calor infernal. Outros foram gastar o resto dos euros. Eu aproveitei pra almoçar numa cidade ao lado, cerca de 20 minutos de trem. E o resto do dia, foi de preparação psicológica pra enfrentar outras 10 horas de voo sobre o Atlântico novamente.

Um horizonte cheio de prédio, e nada belo, visto do nosso flat em BH.

Retornamos ao nosso querido país, depois de diversos atrasos e infortúnios. Chegamos em Brasília só a tempo de descobrir que a Espanha tinha sido a campeã da Copa. Depois de mais demora, nos mandamos para Belo Horizonte.
Ah... nada melhor do que comer comida brasileira depois de tanto tempo, não é mesmo? Lá em Londres, basicamente era tudo arroz com ervilha, e umas carnes gordurosas. Felizmente tinha porcarias como Subway e McDonald's de sobra pra nos manter vivo. Portugal não era muito diferente, mas era um pouco mais parecido com aqui. Pra minha sorte, no dia que almocei por conta própria no último dia livre em Portugal, na cidade de Cascais, tinha comida "quase" brasileira. No outro dia, ensaiamos e tocamos à noite. Não foi tão bom quanto em Londres, mas foi melhor que em Lisboa.
Logo após um dia de compras e caminhadas na Cidade de Belo Horizonte, arrumamos nossas malas e partimos para a Terra da Garoa.

Uma das coisas que mais me espantou foi o frio assim que pisamos no solo paulistano. Os primeiros dias em São Paulo foram tensos, finalmente tiramos nossas roupas de frio do fundo da mala. Lá na Europa estava até agradável, em BH também. Mas em Sampa o couro comeu. Estava entre 10ºC e 15º o tempo todo. Isso pra baiano é intolerável. Dava inveja ver os ingleses saindo de camisetas e shorts. Felizmente, nos últimos dias a situação climática melhorou um pouco. Era horrível você dormir na cama, todo aquecido, e sentir a cama congelada alguns centímetros ao lado.

Cerca de 80% da orquestra aproveitaram os dias em SP para gastar grana na 25 de Março e região. Felizmente, tudo o que eu precisei eu encontrei na Oiapoque, em BH. Num dos dias "livres" nossos, fomos obrigados convocados a fazer uma visita ao Museu da Língua Portuguesa, pertinho da Sala São Paulo. Também visitamos o Instituto Bacarelli em Heliópolis, onde ensaiamos e intercambiamos com os músicos de lá. Também assistimos um concerto na Sala São Paulo, sinceramente eu não estava com saco nenhum e fiquei na antesala dormindo. Acho que meu relógio interno ainda estava no fuso horário europeu. No dia seguinte, fizemos um show lá na Sala, pessoalmente, foi o concerto que eu mais gostei. Mas ainda animados, tínhamos que concluir nosso trabalho onde estivemos ano passado: Campos do Jordão.
Ainda hospedados em São Paulo, passamos o dia somente para visitar, ensaiar e tocar em Campos. Para a nossa surpresa, o clima estava agradavelmente quente. Eu já estava preparado, como no ano passado: duas calças, duas meias, três casacos... mas pra minha decepção, o frio de 3°C não voltou. Depois do megashow que demos lá no famoso auditório do Festival Internacional, tivemos um jantar numas tendas nas montanhas de Campos, sob a luz das estrelas. Este local também foi palco de vários depoimentos, como de costume em todo final de uma grande viagem. Muitos dos que deporam foram os povos "estranhos" (apelido carinhoso pros convidados do FEMUSC e agregados), os ingleses e dos G10, o grupo dos 10 melhores músicos do Neojibá que intercambiaram com a National Youth Orchestra of Great Britain (NYO). Após muitas lágrimas e momentos emocionantes (sem deixar de lado a velha bagunça que nos caracteriza), voltamos para São Paulo para arrumarmos nossas muambas e voltarmos à terrinha.

Nosso brother Carpe encerra a sessão de depoimentos emocionados, sob intensas ovações do público.

Apesar de muitos reclamarem, achei a turnê extremamente agradável e informativa. Acredito que até os "erros da produção" (que a própria produção do Neojibá assumiu depois) não foi nada, comparado ao nível de informação, entretenimento e música que recebi em troca.

Ah... nada melhor do que deixar este precioso registro aqui, que é SUCESSO no YouTube, não é mesmo?


Se quiser ver as demais fotos, clique na seção "Álbum" no blog.

; )

2 comentários:

  1. JAMBERÊ, I'LL KILL YOU! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    Adorei, assim como todos os outros. Só não gostei da parte daquela minha foto tristonha, Cristo, te matarei por isso! Adorei! Ri muito aqui! Parabéns!

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  2. Desculpe, querida, mas foi por uma boa causa. Aquela foto resumiu todo o sentimento do Grupo 3, naquele fatídico dia. hihi

    bjs

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