domingo, 29 de maio de 2011

Lang Lang no Fubá

A Cidade de Londres foi novamente palco para mais um evento que participei junto com a YOBA - Youth Orchestra of Bahia, a orquestra internacional do projeto Neojibá. Desta vez, tivemos o imenso prazer de trabalhar juntamente com dois grandes jovens músicos internacionais, o pianista Lang Lang e um maestro latino-americano. Apesar de pouco tempo, pude vivenciar momentos mais marcantes e duradouros do que vivenciei na nossa última visita ao Reino Unido. Foi tudo muito tenso e muito corrido, mas, como já era de se esperar, no final deu tudo muito certo - e até demais!


Após mais um cansativo processo de viagem internacional, finalmente chegamos à capital britânica no final da noite, jantamos no nosso local de atividades. Para a minha surpresa, o cardápio estava bem melhor em relação à última viagem; talvez porque decidiram se basear em diversas culinárias do mundo. O hotel desta vez não era tão perto do centro e nem luxuoso também, mas era numa área de Croydon aparentemente pacata - infelizmente o turco do kebab nos disse que era uma área violenta, e que um policial havia sido esfaqueado na semana passada. Bom, nada assustador comparado à nossa realidade, mas felizmente não deu nada errado e ninguém do grupo tomou facada. Mas no geral o apartamento era um tanto confortável, embora não houvesse um sistema de aquecimento para esquentar o negócio - salvo um pequeno evento que esquentou uma noite, que explicarei mais adiante.

A lendária Meinl-Weston

No dia seguinte, um amigo e eu fomos encarregados de comprar na famosa Phil Parker alguns materiais para os metais da orquestra. Os donos da lojas são muito gente boa e atenciosos, recomendo a visita! Até encontramos três brasileiros por lá, uns sulistas daqueles que adoram fazer piadinha de nordestino. Seguimos o dia com ensaio, assistindo ensaios e recitais.

Lang Lang atento a qualquer baratino possível


A outra manhã nos vimos numa igreja em Waterloo, próximo ao Southbank Centre, onde ensaiamos durante o dia. Na segunda parte do ensaio, chega a estrela do evento, o oriental Lang Lang. Me chamou bastante atenção a sua intepretação do Rhapsody in Blue de Gershwin; à primeira vista me pareceu mais uma demonstração de domínio e superioridade para com os demais (grandes) pianistas presentes naquela igreja, mas depois deu para perceber que o chinês estava dando um feeling de big band na coisa. Após fechar a programação do ensaio, vai que alguém lembrou de ensaiar o "taco-taco", o bis para piano e orquestra, arranjando especialmente para o Lang Lang. Foi irônico o cara lembrar de ensaiar o bis, mas não lembrou de trazer a partitura dele do Tico-Tico. Por um instante eu cheguei a pensar que ele havia decorado a peça inteira - afinal, era de curta duração, as outras duas peças do repertório ele tocava de cor, e a partitura do Tico-Tico havia sido enviada para ele muito antes da orquestra começar a ler. Descasos à parte, a orquestra fez seu trabalho e me surpreendeu naquele ensaio.

Cheguei cansado ao hotel, me restando somente algum tempo para descansar e ajeitar as coisas para o concerto no dia seguinte. Mas algo me incomodava naquela noite. E muito. As meias molhadas de suor do meu colega de quarto estavam deixando o ambiente do quarto um tanto incômodo. "Vou colocar aqui na janela, vão secar rápido" - disse ele. Então eu raciocinei que nada iria adiantar, pois o vento frio não iam secar as meias e muito menos tirar o fedor, além do risco de cair em algum lugar. "Deixe de ser burro, use o secador!" - disse eu, num ato meio desesperado. E assim ele o fez, as meias estavam sendo secadas, o mau cheiro estava indo embora, mas logo começou a aparecer outro mau cheiro pior ainda. O cheiro de algo queimando estava evidente, e concluímos que só poderia estar vindo direto do secador. Meu colega ainda foi insistente, continuou a mexer no aparelho, enquanto eu ouvia "Jamberê, essa porra tá dando tilt aqui!" enquanto eu tomava meu banho sossegado. Depois de alertá-lo para deixar o secador quieto, mesmo desligado, o aparelho continuou a exalar o cheiro de queimado. "Dê um saque aí pra ver se você desligou" - disse eu. Mas no momento que meu colega tocou no aparelho para verificar se chave estava na posição "off", o aparelho começou a pegar fogo por dentro e a disparar faíscas. Sem saber o que fazer, começamos a jogar o secador um para o outro, para ver quem tomava a atitude de tentar desligar aquilo. Seria trágico se não fosse cômico. O desespero começou a tomar conta das nossas cabeças, o secador emitia mais faíscas ainda e começou a retorcer, até que eu tive a esdrúxula ideia de tentar arremessar o controle remoto na chave do "off", numa tentativa de impedir um desastre. Até que meu colega, dessa vez tendo uma luz momentânea, resoveu encerrar o fornecimento de energia do quarto ao retirar o cartão-chave do dispositivo. O cheiro da coisa era tão forte que estava presente em todos os apartamentos do andar, e alguns ocupantes preocupados vieram me perguntar o que estava acontecendo - infelizmente só pude oferecer minhas apologies pelo transtorno.

Os restos mortais do secador maligno

Ao notificar o evento à recepção do hotel, as duas senhoras inglesas que nos assistiram foram muito educadas e caridosas; nos ofereceram imediatamente um quarto novo e até um copo de mocha para aliviar a tensão. Eu me pergunto o que teria acontecido se estivéssemos em Portugal. Na manhã seguinte, naturalmente, o café-da-manhã foi recheado de gozações sobre o 'incêndio' causado por tentar secar uma 'cabeleira' que nós do quarto não possuímos.

"Metales... todavía los escucho!"

Pois eis que chega o dia do concerto, depois de praticamente 5 meses de preparação musical, artística e admistrativa. Apesar da importância do evento, e da clara magnitude que o Royal Festival Hall exercia, eu consegui encarar como algo bem natural. Ajustamos, como de costume, alguns detalhes antes da apresentação. Na hora de ensaiar o bis, pude notar que Lang Lang ainda estava sem a partitura, e lia o Tico-Tico com a 'grade' orquestral. Enquanto isso, o maestro nos alertava para não fazer uma performance do bis muito dançante, sem giros de instrumentos e sem danças, pois iria parecer um 'circo'. Os metais, coitados, foram proibidos de tocar como se deve, ainda mais no trecho onde o arranjador escreveu alguns trechos onde o bicho tinha que pegar.

"Don't rush! Don't rush!"

O concerto foi uma experiência fantástica. O público londrino, como no ano passado, salvava-nos com calorosos e longos aplausos a cada obra realizada. O Respighi para mim foi a melhor obra da noite, ao contrário de muita opinião dos colegas de orquestra; foi um grande começo de concerto. O Gershwin terminou divertido, principalmente pela diversão aparente e exagerada do solista ao tocar a peça americana. Chega a hora do bis, e para a surpresa do maestro, o 'circo' pegou fogo! A performance da orquestra me surpreendeu muito, mostraram muito mais confiança ao tocar uma peça brasileira ao nosso jeito. O solista tentou acompanhar a orquestra como pôde (estava muito ocupado virando as páginas da 'grade' orquestral), mas em alguns momentos conseguiu arrancar boas gargalhadas do público. E por falar nisso, a cada palhaçada que o 'circo' fazia, o público reagia instataneamente: eu não sabia se estava me sentindo num ensaio aberto ou num seriado americano, daqueles repletos de risadas enlatadas. Mas creio que isso ajudou mais ainda a orquestra se soltar! Encerramos o concerto com nossa saída ao som do frevo Vassourinhas como sempre, sob o fervor dos sopros e percussão enquanto as cordas, o maestro e o solistam dançavam loucamente de uma ponta à outra do palco. A sincronia dos aplausos do público junto à marcação da percussão serviu de prova para a diversão total deles. O encerramento, de fato, fechou com chave de ouro aquela noite única!

Ainda extasiados com o resultado fantástico do concerto, fomos jantar no local de sempre, num refeitório do Royal Festival Hall (que aliás, as moças que nos serviram sempre foram simpáticas e sorridentes, assim como a maioria do povo londrino conosco), onde este se transformou num palco de festa. Muitas pessoas importantes para a realização do evento foram ovacionadas, inclusive o arranjador e a "tia" do lanche do Teatro Castro Alves, estes não sei o porquê. Mas um fato me chamou a atenção. Na chegada trinfal do maestro e sua equipe, foram recebidos com bastante "bravos!" e diversas outras ovações. O próprio maestro foi, pessoalmente, cumprimentar e agradecer os membros da orquestra, em cada mesa. As (grandes) mesas estava basicamente dividas por naipes da orquestra e equipe da administração/produção. Foi interessante como o maestro passou de cara fechada pela mesa dos metais sem mesmo acenar um tchauzinho. Óbvio que isso foi motivo de piada e mais risos para nós, pois havíamos até feito uma aposta interna de que o maestro não olharia mais nas nossas caras após sentir a verdadeira potência do naipe de metais no concerto, coisa que ele restringiu bastante nos ensaios. Tivemos uma oportunidade então de deixar uma mensagem de carinho numa camisa da YOBA, com assinaturas dos membros da orquestra, que seria entregue à ele posteriormente.

E é óbvio que num evento magnífico como este, nem mesmo a Rainha foi esquecida numa comemoração nossa:


Bom, se o maestro ficou furioso com os metais ou não, eu não dou a mínima. Uma curiosidade que eu reparei até agora é que, até este exato momento que estou digitando esta frase, o maestro não aceitou nenhum homem do naipe dos metais da orquestra no seu facebook. Coincidência ou não, eu mesmo tentei duas vezes, bem antes do concerto por sinal, mas infelizmente não obtive sucesso. No entanto, achei que ele fez um belíssimo trabalho e tem um futuro brilhante - eu pessoalmente gosto do estilo dele, regentes ruidosos para mim são um saco, mas há quem goste - mas, na minha mais modesta opinião de músico amador, creio que esse estrelismo todo girando em torno dele é um tanto exagerado. Mas se funciona, então deixa, né? Tá certo que ele demonstrou não gostar muito do estilo dos bis festivos das orquestras do El Sistema (opnião inclusive compartilhada em uma crítica de um britânico, mas parafraseando Carmen Miranda... "se o tico-tico tem que se alimentar, que vá comer umas minhocas no pomar"!

E como 'saidera', para quem não pôde ou ainda não conferiu o concerto, aqui está o vídeo oficial do bis e encerramento (postarei os outros assim que estiverem disponíveis):



E assim se encerra mais uma aventura. Em agosto tem mais! Parabéns para toda a YOBA e produção pelo belíssimo concerto e oportunidade!

Para algumas fotografias, não deixe de visitar o meu flickr e meu Picasa!

; )

2 comentários:

  1. Parabens pelos trabalhos e sucesso na sua caminhada.

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  2. Sinto muito orgulho em ver nossos jovens músicos em tão grande apresentação e mostrando talento, competência de forma tão alegre!!!
    parabéns a todos, parabéns Jamberê por mais um lindo arranjo!!

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